Memorial Luis Carlos Prestes, obra arquitetônica vira alvo de debate ideológico.

Oscar Niemeyer nunca escondeu sua escolha pela esquerda e sua filiação ao Partido Comunista, mesmo vindo de uma família burguesa. Apesar destas convicções, poucas vezes sua arquitetura serviu a esta ideologia. Conhecido pela imponência de suas obras, que se destacam na paisagem quase como esculturas, em nada parecem se relacionar com a sua então ideologia política.

Neste contexto, e no atual momento vivido pelo Brasil, uma de suas últimas obras, cuja inauguração ocorreu apenas depois de sua morte, acabou por virar alvo da guerra ideológica que tomou conta do País. O Memorial Luis Carlos Prestes, inaugurado ao público em 28 de outubro de 2017 em Porto Alegre, RS, trouxe consigo a paixão pelo debate político próprio da pessoa que lhe dá o nome.

Ícone da esquerda, Prestes é uma personalidade muito criticada por políticos e defensores da direita. No contexto atual, políticos chegaram a propor projeto de lei que destinava a área para outra finalidade, prevendo inclusive a demolição da obra como um todo. Felizmente para os amantes da arquitetura tal proposta não foi a frente.

Porto Alegre pela primeira vez recebe uma obra de Niemeyer em em seu melhor estilo, linhas simples, elegantes, sem ser monumental – mesmo por que o tema em si sequer permitiria. Niemeyer é sem sombra de dúvida um dos mais importantes arquitetos brasileiros e talvez o maior em fama internacional. Pensar em demolir uma obra única em uma capital brasileira por opiniões (ou mesmo discordâncias) políticas é um pesadelo para muitos, e coloca em debate o radicalismo que toma conta do país.

A obra do Memorial Luis Carlos Prestes não é apenas um prédio, é uma das últimas obras de Niemeyer, doada à cidade. Traz a Porto Alegre, uma certa importância junto a outras cidades brasileiras, colocando-a junto a outras com obras do arquiteto. Mas mais do que isto, o Memorial é uma das poucas obras que tenta se comunicar com o lugar onde está inserida, nas proximidades da Orla do Rio Guaíba.

Para quem não conhece Porto Alegre, a Orla da cidade apresenta um fenômeno bastante peculiar, ali são inseridas funções que não valorizam a vista, nem seu famoso pôr-do-sol. Entre estas estão dois shopping centers, um estádio de futebol e um ginásio poliesportivo. Projetos futuros querem implantar ainda um centro de eventos de grande porte e uma das maiores lojas de materiais de construção da região metropolitana. O que soa quase como uma piada de mal gosto contrasta com o projeto de Niemeyer e suas passarelas que pretendem conduzir o usuário que caminha pela orla para dentro do Memorial. Uma pena perceber, porém, que pela manutenção da segurança, grades impedem a conexão pensada com a Orla, deixando o acesso restrito a área de estacionamento que o prédio compartilha com a Federação Gaúcha de Futebol. Acessar justamente pelo estacionamento parece uma deturpação ao projeto em seu conceito mais fundamental, contrária ao próprio endereço do imóvel que fica na avenida Edvaldo Pereira Paiva 1527-1889, justamente o acesso que estava fechado com grades.

Embora merecesse uma área mais privilegiada, seja no que se refere quanto à proximidade em si com a Orla, seja no que se refere a topografia (visto que está afundado o que compromete a sua relação com a paisagem), estas questões não desmerecem a obra arquitetônica em si – poderiam apenas tê-la deixada mais interessante e fotográfica.

A planta circular do espaço não se limita aos limites externos, as paredes internas, os espaços, refletem este conceito que se mostra de forma muito forte na obra arquitetônica como um todo. O Memorial em si, conduz o visitante por um grande salão, delimitado no exterior pelas janelas e no interior por paredes que conduzem ao centro do memorial dedicado a Prestes, demonstrando em planta, no centro, no coração do espaço. Outro espaço, distinto, serve de área para reuniões, exposições temporárias, mostras. Banheiros e áreas técnicas terminam por compor o espaço.

Particularmente lamento que a obra não esteja na orla em si, mais próxima das águas, integrada de forma mais efetiva à paisagem natural, sitio que seria muito mais interessante inclusive para a característica peatonal de acesso. Hoje, afundado na paisagem, pode até passar desapercebido para muitos mas certamente marcará a cidade que recebeu uma das últimas obras de Oscar Niemeyer.

Equipe Capsula.